Bar Lagoa: a arte carioca de conhecer o garçom

Fabio Costa · 21/08/2026

Tem lugar que a gente escolhe e tem lugar que escolhe a gente. O Bar Lagoa é dos segundos. Passei anos morando ali perto, e virou parada quase obrigatória: fazia o retorno na Maria Quitéria e já ia direto para uma mesa (quando tinha mesa, claro). Antes de mim, era meu pai quem contava histórias do bar: dizia que ia lá com o avô dele, numa época em que o bar ainda nem imaginava que um dia teria fila de uma hora na porta.

E olha, o Bar Lagoa tem currículo para ostentar essa sobrevivência toda: nasceu em 1934 como Bar Berlim, teve que trocar de nome por causa da Segunda Guerra (imagina o dono explicando aquilo) e hoje é patrimônio do Rio. Mas, sinceramente, o que fez esse bar virar lenda pra mim nunca foi a cerveja gelada nem a milanesa. Foi o Alfredo.

O Alfredo era um senhorzinho de idade avançada, elegantérrimo no paletó branco, que trabalhava até o fim da linha. Nos últimos anos já vinha mais trêmulo e só anotava o pedido, sem servir mais as mesas. Mas eu peguei o Alfredo raiz, o do atendimento completo.

Ainda nos tempos áureos do Alfredo, teve um domingo em que cheguei lá depois da praia com um amigo médico, que por coincidência já tinha até atendido a mulher dele. A fila era um caos, dessas de uma hora de espera, lá pelas três, quatro da tarde. Chamei o Alfredo de longe só para perguntar como estava a lista, e ele nem deixou terminar a pergunta: "Vem doutoire, vem doutoire", já nos levando para uma mesa vazia, como se ela estivesse reservada havia semanas.

A galera da fila, claro, reclamou, e com razão, ninguém gosta de ver alguém furar a espera. O Alfredo, sem nenhuma cerimônia, resolveu do jeito dele. Olhou para o rapaz que reclamou e soltou: "Ele eu conheço e você eu não conheço."

Não era justiça, era intimidade: essa lógica muito carioca de que o botequim é quase uma extensão da sua casa, e quem é da casa senta primeiro. Sentamos meio encabulados, mas sentamos. Ele nem perguntou o que a gente queria, já mandou vir o salsichão misto de entrada e disparou pra cozinha o pedido de sempre: bife à milanesa com salada de batata. Chopp, é claro, nunca baixava do nível de segurança.

A segunda história é ainda melhor. Depois de comer, resolvemos pedir aqueles doces portugueses que a própria mulher do Alfredo fazia pro bar. Ele vetou na hora, sem votação: "Não, não, não vai comer. É muito caro, não vai comer, não vai comer!"

Trouxe a conta e decretou que sobremesa não ia rolar, porque era caro demais para a gente pagar. Ponto final. Só que no dia seguinte, de manhãzinha, lá estava o Alfredo no hospital onde eu trabalhava, não para uma consulta, mas para nos entregar, pessoalmente, os tais doces portugueses. Antes mesmo de abrir o bar, ele fez questão de passar lá só para isso.

Esse era o nível do Alfredo. Um cara que decidia quem sentava e quem não comia doce, movido por uma espécie de carinho autoritário que só existe nesses botecos antigos do Rio, onde o garçom vira quase parente depois de umas dez visitas. No fim, o que fica do Bar Lagoa não é a fila nem a milanesa. É essa coisa bem carioca de transformar um bar em extensão da família, uma mesa por vez.

O Alfredo se foi em agosto de 2024. Um garçom desses não devia ter data para ir embora, mas pelo menos deixou um monte de gente por aí contando histórias como essa.