Cachaça é feminino

Cynthia Jacques · 18/08/2026

Mulheres que apreciam, produzem, estudam e transformam a bebida brasileira

Kátia Espírito Santo conhece o caminho que leva um alambique familiar ao mundo. À frente da Cachaça da Quinta, ela recebeu uma tradição iniciada em 1923 e a renovou com conhecimento, tecnologia, nova identidade visual, novas embalagens e uma linha de produtos alinhada aos padrões internacionais. A marca chegou a mercados como Estados Unidos, Taiwan, Inglaterra e França e conquistou reconhecimento em concursos internacionais.

Isadora Bello Fornari conhece o caminho inverso, e igualmente necessário: o que leva o mundo a reconhecer a cachaça brasileira. Consultora de destilados, pesquisadora de madeiras brasileiras, jurada do Concours Mondial de Bruxelles e participante de painéis internacionais, Isadora transforma análise sensorial, hospitalidade e comunicação em ferramentas de valorização da bebida. Sua trajetória passa por bares, restaurantes, cursos, eventos e conteúdos que apresentam a cachaça como parte da riqueza cultural e gastronômica do Brasil.

Entre o alambique de Kátia e os circuitos de degustação, formação e avaliação em que Isadora atua, existe uma afirmação que ainda precisa ser dita com clareza: cachaça é feminino. Cachaça é coisa de mulher.

Se essa frase provoca estranhamento, talvez seja porque o preconceito envelheceu mais lentamente do que a própria bebida. Durante muito tempo, a cachaça foi empurrada para o canto da bebida bruta, barata e masculina. E, quando uma mulher dizia que gostava, conhecia ou simplesmente queria beber cachaça, o julgamento vinha antes do primeiro gole. O mesmo copo que, nas mãos de um homem, podia sugerir boemia ou conhecimento, nas mãos de uma mulher ainda era tratado como desvio de comportamento.

Mas por que uma mulher não poderia apreciar uma boa cachaça? Por que o paladar feminino precisaria ser explicado, suavizado ou escondido atrás de um drinque adocicado? Quem decidiu que a mulher não poderia falar de madeira, fermentação, aromas, terroir, tempo de descanso ou qualidade?

A cachaça não é apenas uma bebida. Ela é agricultura, técnica, cultura, ciência, hospitalidade e negócio. E as mulheres sempre estiveram próximas desses territórios. O que muda agora é a visibilidade: elas deixam de ser vistas apenas como apoio, herdeiras ou acompanhantes e assumem a autoria da produção, da pesquisa, da gestão, da comunicação e do consumo responsável.

Kátia e Isadora abrem esta conversa porque representam duas formas complementares de enfrentar o preconceito: uma demonstra, pelo produto e pela gestão, que tradição também pode alcançar padrões globais; a outra mostra, pelo conhecimento e pela circulação internacional, que a cachaça pode ser compreendida, apreciada e respeitada em qualquer mesa.

Maria Izabel, de Paraty, conhece bem o peso e a potência dessa mudança. Ela comprou um sítio na década de 1980, criou as filhas depois da separação e exerceu diferentes atividades para sustentar a família. Em 1996, começou a produzir cachaça no alambique do sítio. Ainda jovem, Maria Izabel ouviu do marido uma frase carregada de desprezo: “Se não fosse por mim, você seria uma cachaceira!”. Anos depois, ela transformou a palavra em identidade e ofício.

A história de Maria Izabel é poderosa porque não fala apenas de uma mulher que faz cachaça. Fala de uma mulher que se apropria de uma palavra usada para diminuí-la. “Cachaceira”, que tantas vezes aparece como acusação, pode também significar conhecimento, autonomia, memória e prazer. Pode ser o nome de quem conhece a bebida pelo cheiro da cana, pelo silêncio da fermentação, pela madeira do envelhecimento e pelo tempo necessário para fazer algo bom.

Essa mudança de lugar aparece em toda a cadeia. No laboratório, por exemplo, está Lorena Simão Marinho, engenheira de alimentos, mestre em Ciência de Alimentos, sócia e gestora executiva do Laboratório Amazile Biagioni Maia, o LABM. Lorena atua na instituição desde 2005 com análises físico-químicas e cromatográficas de alimentos e bebidas, desenvolvimento de novas bebidas, adequação às exigências legais, otimização sensorial e padronização de cachaças. Também ministra cursos e participa da formação de profissionais do setor.

O trabalho de Lorena lembra que uma cachaça de qualidade não nasce apenas da tradição. Ela também depende de método, controle, conhecimento e inovação. A tradição permanece viva quando consegue conversar com a ciência. E essa conversa tem muitas vozes femininas.

Na defesa institucional do setor, Andressa Beig Jordão atua como diretora executiva do Instituto Brasileiro da Cachaça, o IBRAC. Sua presença ajuda a ampliar a discussão: valorizar a cachaça também é defender sua identidade, sua reputação, seus produtores e seu lugar no mercado brasileiro e internacional.

Na produção, Kátia Alves Espírito Santo representa outra dimensão dessa história. À frente da Cachaça da Quinta, em Carmo, no Rio de Janeiro, ela combina herança familiar, gestão e busca por excelência. O próprio setor a reconhece como uma liderança capaz de aproximar tradição e inovação. Tão reconhecida que ela é, também, presidente da APACERJ (Associação dos Produtores de Cachaça do Estado do Rio de Janeiro). Não se trata de escolher entre passado e futuro. Trata-se de entender que uma tradição só continua relevante quando alguém assume a responsabilidade de renová-la.

Em Rio das Flores, no Vale do Café, Cilene Werneck mostra que a excelência de uma cachaça também se decide no olhar, no olfato e na sensibilidade de quem conhece profundamente o líquido. Ao lado do marido, Eli Werneck, engenheiro responsável pelo projeto e pela construção do alambique, ela ajudou a conduzir a Cachaça Werneck desde o início. Artista plástica de formação, Cilene é responsável pela receita do fermento e pela análise sensorial dos lotes de engarrafamento. Também responde pelos blends que definem a identidade da marca.

Há algo especialmente simbólico nessa divisão de responsabilidades. Eli desenhou a estrutura e os controles do alambique; Cilene interpreta o resultado sensorial e decide, com rigor, o que deve chegar à garrafa. Não é uma participação acessória. É autoria técnica. Cada blend é uma escolha sobre equilíbrio, persistência, aroma, textura e memória. A mulher, diferente do que muitas vezes acontece sendo apresentada apenas como “a esposa do produtor” é, na prática, a pessoa que define o perfil da cachaça.

Na mesa, no bar e na análise sensorial, mulheres como Deise Novakoski e Isadora Bello Fornari ajudam a construir uma nova linguagem para a bebida. A cachaça pode ser degustada, harmonizada, estudada e apresentada com o mesmo cuidado dedicado a outros grandes destilados. Não precisa pedir desculpas por sua origem brasileira e tampouco precisa ser consumida de modo irresponsável para provar que é autêntica.

A criação da Confraria Mulheres da Cachaça, em 2017, nasceu justamente para enfrentar o estigma de que cachaça seria uma bebida masculina. Rosana Lopes resumiu o propósito do grupo em entrevista: mostrar que a mulher pode tomar cachaça com elegância e que é possível “beber menos, beber melhor”. A confraria reúne produtoras, sommelières, profissionais da gastronomia, pesquisadoras e apreciadoras.

Essa rede é importante porque o preconceito não desaparece apenas quando uma mulher ganha um prêmio ou assume uma função de liderança. Ele começa a perder força quando mulheres se reconhecem umas nas outras, trocam conhecimento, ocupam eventos, formam novas profissionais e deixam claro que não estão entrando em um território alheio. A cachaça também é delas.

Por isso, esta coluna olha para Maria Izabel, Andressa Beig Jordão, Lorena Simão Marinho, Luiza Eugênia Konder, Deise Novakoski, Andreia de Oliveira Gerk, Raquel Lopes, Kátia Espírito Santo, Cilene Werneck e Isadora Bello Fornari como parte de um movimento maior. São trajetórias diferentes, em lugares diferentes, com experiências diversas. Algumas estão ligadas à produção; outras, à ciência, à representação institucional, à hospitalidade, à análise sensorial, à comunicação ou à construção de comunidades. Juntas, elas mostram que não existe uma única maneira de ser mulher da cachaça.

Existe, sim, uma escolha comum: não aceitar que a bebida seja definida pelo preconceito. Nem o preconceito contra a cachaça, tratada por muito tempo como destilado menor, nem o preconceito contra a mulher que a aprecia, produz, estuda ou vende.

Cachaça é feminino porque carrega terra, tempo, cuidado, técnica e transformação. Cachaça é coisa de mulher porque mulher também faz negócio, conduz laboratório, lidera associação, administra alambique, cria marca, educa paladar e preserva memória.

E talvez seja justamente esse o gesto mais bonito dessas mulheres: elas não estão apenas ocupando um espaço. Estão mudando o significado do espaço. Quando uma mulher ergue uma dose de cachaça, ela não precisa provar nada a ninguém. Mas, quando decide contar a história daquela bebida, cuidar de sua qualidade ou conduzir sua produção, ela ajuda o Brasil a reconhecer o que sempre esteve diante de nós.

Cachaça é feminino. E já passou da hora de o mercado, a gastronomia e a sociedade beberem essa ideia.


Cynthia Jacques

Este conteúdo foi produzido por Cynthia Jacques, colunista convidada do Mundo Food Service. A autora responde integralmente pela apuração, redação e curadoria das informações aqui apresentadas.

Fundadora e diretora de comunicação da agência digital e de conteúdo Idea Shake e fundadora da KIDS, um site e uma revista voltados ao universo infantil, às famílias e à cultura contemporânea.

Atua nas áreas de comunicação, conteúdo, estratégia, pesquisa de tendências e inovação. Tem MBA em Neurociência, Consumo e Marketing, formação que fortalece seu interesse por comportamento, comunicação e relações de consumo.

Sua experiência também inclui atuação acadêmica e educacional, além da produção de conteúdos para segmentos como saúde, análises clínicas, casamentos, marketing digital, família, infância e bem-estar.

Gosta de conectar ideias, identificar novos movimentos e transformar temas complexos em conteúdos claros e relevantes.

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