Mari Fernandes · 18/07/2025
No setor de alimentação, onde tudo gira em torno da experiência do cliente, há uma pergunta fundamental que poucos empresários fazem no dia a dia: “O que está sendo servido nos bastidores?”
A qualidade do atendimento começa bem antes do pedido ser anotado. Começa na forma como os colaboradores são recrutados, acolhidos e alinhados aos valores de cada empresa. Na maioria das vezes não existe uma metodologia para sustentar esse processo tão importante.
O problema é que muitos bares e restaurantes sequer definiram seus valores com clareza, pois acham que não têm necessidade. Os empresários acreditam que precisam apenas:
Mas quando param para olhar a operação, encontram:
Não é surpresa constatar que a maior dor de cabeça dos empresários hoje sejam as pessoas, o time. Para mudar esse cenário é preciso encontrar as pessoas certas não por sorte, mas sim por alinhamento com a cultura, utilizando metodologia e ciência.
Comumente empresários recebem currículos por indicação e costumam apenas olhar o que a pessoa fez, quais são suas experiências. Se essas experiências os agradarem, eles acreditam que são currículos bons.
Porém, no momento da entrevista com o candidato, os empresários ou líderes que realizam as entrevistas esquecem de avaliar os valores. E são os valores que realmente mostram quem é o profissional em questão. Também não checam as referências profissionais anteriores do candidato.
Quando se ignoram esses critérios, bares e restaurantes acabam contratando pessoas “habilidosas”, mas desalinhadas, que não acreditam na forma como a empresa quer servir ou que não têm a “atitude” necessária para o dia a dia.
Isso resulta em:
Segundo pesquisa da Harvard Business Review, 80% dos desligamentos involuntários em empresas não acontecem por falhas técnicas, mas sim por questões de comportamentos e valores desalinhados com a cultura da empresa. No food service, onde o tempo e a pressão são altos, isso pesa ainda mais.
Para atrair os talentos certos, especialistas recomendam uma abordagem estruturada:
Antes de publicar a vaga:
Durante a entrevista:
Essa abordagem já ajuda a reduzir significativamente a alta rotatividade.
A realidade é clara: você pode até ter um prato premiado, mas se o garçom estiver mal treinado, cansado e sem propósito, a experiência vai desandar. Isso acontece porque a cultura da empresa é percebida no comportamento dos colaboradores, seja ela qual for.
Empresas como Outback, Madero e Spoleto têm algo em comum: elas investem no Índice de Satisfação do Atendimento. Isso significa que o comportamento do time é treinado com base em valores vividos diariamente.
Gentileza, prontidão, respeito, empatia, alegria. Tudo isso não vem por acaso. Vem de um time escolhido com base na cultura e não apenas na pressa de preencher a vaga.
Existe uma preocupação com a experiência do cliente, mas existe uma preocupação maior em manter o time seguindo um Padrão de Atendimento. Se a cultura da empresa não é forte e nem consolidada, cada colaborador vai imprimir sua cultura pessoal na empresa.
Quando os donos ou as lideranças definem seus valores e os praticam com coerência, eles se tornam critérios naturais de contratação, treinamento e gestão. A cultura não precisa mais ser “empurrada goela abaixo”, ela é sentida e vivida diariamente.
Os colaboradores passam a saber o que se espera deles, têm clareza sobre:
Estabelecimentos que se preocupam com isso têm:
Uma pergunta essencial que todo líder do food service deveria fazer é: “Quais valores estão sendo servidos por seu time hoje?”
O cliente talvez não saiba explicar o que sentiu, mas ele percebe. O atendimento com brilho nos olhos vem de dentro, vem da conexão do colaborador com o propósito da empresa. Pessoas bem selecionadas expressam a cultura para o cliente.
Antes de abrir as portas, é fundamental abrir um espaço para uma reflexão com o time: “Quais são os nossos verdadeiros valores e como eles aparecem no nosso dia a dia conosco e para o nosso cliente?”
Exercício recomendado: Escrever três valores que se deseja ver no comportamento do time e observar por alguns dias se eles estão sendo praticados e se isso é levado em consideração na hora do processo de recrutamento e seleção.
A filosofia por trás dessa metodologia é simples: “Pessoas certas servem com o coração e o coração segue valores.”
É fundamental refletir sobre o que se considera essencial no atendimento e comportamento da equipe. Recomenda-se escolher 3 valores principais e descrevê-los de forma simples e prática, usando a linguagem do dia a dia do estabelecimento.
O ideal é investigar experiências passadas do candidato. Perguntas como “Conte sobre uma situação em que você teve que manter a gentileza mesmo sob pressão” revelam mais sobre valores do que perguntas técnicas.
A recomendação é praticar os valores diariamente através de exemplos concretos. É importante reconhecer comportamentos alinhados e corrigir gentilmente quando necessário, pois a cultura se constrói no dia a dia, não em treinamentos pontuais.
Existe uma pergunta que pode transformar completamente a abordagem de recrutamento no food service: “Você contrata por pressa ou por propósito?”
A resposta a essa pergunta define o futuro do estabelecimento. Porque quem não serve com valores, serve com problemas.
Para implementar essa metodologia, recomenda-se seguir estes passos:
Esta abordagem de seleção baseada em valores não é apenas teoria. É uma metodologia prática que tem transformado estabelecimentos do food service, reduzindo rotatividade e melhorando significativamente a experiência do cliente.
1. Definição Clara de Valores
2. Processo Seletivo Estruturado
3. Cultura Vivida no Dia a Dia
4. Monitoramento Contínuo
Este conteúdo foi produzido por Mari Fernandes, colunista convidada do Mundo Food Service. A autora responde integralmente pela apuração, redação e curadoria das informações aqui apresentadas.
Psicóloga CRP 03/8519, Headhunter, Master Coach e empresária. Possui mais de 15 anos de experiência com gestão de Recursos Humanos em empresas nacionais e multinacionais, como Walmart e Cencosud. Master Coach pela Sociedade Brasileira de Coaching, possui MBA em Coaching e Gestão de Pessoas pela FAPPES (SP) e Coaching Ontológico pela Fractal Escuela Ontologica de Desarrollo Humano (Santiago/ Chile).
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